Dia Mundial do Meio Ambiente: como as cooperativas ajudam a proteger os biomas brasileiros
Cuidar do meio ambiente também é cuidar das pessoas. A urgência planetária em preservar os recursos naturais, que hoje mobiliza governos, empresas e a sociedade, faz parte da essência do cooperativismo há gerações. O tamanho, a diversidade e a capilaridade do movimento – que reúne 25,8 milhões de cooperados em todo o Brasil – ampliam sua capacidade de impulsionar práticas sustentáveis em diferentes territórios, por meio de modelos baseados na cooperação, no desenvolvimento local e na responsabilidade compartilhada.
Além da presença em municípios de todos os biomas brasileiros – Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, Cerrado, Pampa e Caatinga – o cooperativismo conta com uma vantagem estrutural para apoiar a preservação, segundo o coordenador de Meio Ambiente do Sistema OCB, Alex Macedo. “Diferentemente de modelos empresariais voltados prioritariamente ao curto prazo, as cooperativas operam com uma lógica de permanência no território, o que favorece decisões alinhadas à sustentabilidade ambiental e à resiliência econômica local”.
Ele destaca que o cooperativismo avança em diferentes agendas ambientais, como sistemas produtivos de baixo carbono, recuperação de áreas degradadas, proteção de nascentes, rastreabilidade e certificações socioambientais. As oportunidades de contribuição, porém, não estão restritas às coops “da terra”, ou seja, do ramo agropecuário. O potencial é transversal a todos os segmentos, especialmente quando as cooperativas têm uma agenda ESG bem estruturada.
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho), conheça exemplos de como o cooperativismo preserva o meio ambiente nas cinco regiões do país:
Floresta em pé
A Região Norte do Brasil é o berço do bioma Amazônia, que abriga a maior biodiversidade do mundo e exerce papel fundamental no equilíbrio ambiental do planeta. Na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, o coop tem ajudado a combater o desmatamento ilegal e a manter a floresta em pé, gerando renda e oportunidade para as populações locais.
Em 2005, a partir da mobilização de comunidades indígenas e ribeirinhas, nasceu a Cooperativa Mista da Flona do Tapajós (Coomflona), com foco no manejo florestal comunitário. Cerca de 300 cooperados produzem madeira nativa de forma responsável, respeitando os ciclos das árvores, sem o uso de tratores e maquinários pesados. As toras de espécies nobres são comercializadas com a certificação internacional FSC, que comprova boas práticas ambientais e garantem remuneração justa aos extrativistas.
Em 2017, a Coomflona criou a movelaria Anambé, onde os cooperados aproveitam os resíduos madeireiros para produzir mesas, cadeiras, armários, portas e outros objetos artesanais, gerando oportunidades de trabalho e renda para mais famílias.
Florescer da Caatinga
Além da riqueza de culturas, a Região Nordeste também reúne uma grande diversidade de paisagens e geografias. São quatro os biomas presentes: Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e pequenas áreas da Amazônia. O predominante entre eles, a Caatinga, é o único bioma exclusivamente brasileiro. Nesse contexto, também nascem soluções únicas, pelas mãos do cooperativismo, para responder aos desafios ambientais do presente e do futuro.
Em meio à vegetação adaptada à seca, floresceu em 2008, em Pintadas (BA), a Cooperativa de Agricultura Familiar Ser do Sertão, que promove o fortalecimento de práticas agroecológicas entre os produtores locais. Entre as principais preocupações está a busca por soluções de adaptação da produção, diante das mudanças climáticas que já alteram as chuvas, a vegetação e o solo.
“A questão ambiental é algo emergente no nosso trabalho porque a mudança climática tem um impacto grande nas propriedades dos nossos agricultores. Temos que pensar em metodologias que nos ajudem a passar por esse momento, porque a gente não vai resolver a questão da seca. A gente tem que aprender a produzir, entendendo que a seca é algo que a gente pode construir junto com ela. A gente tem que se adaptar a isso, porque não vai mudar”, afirma a presidente da Ser do Sertão, Valdirene Santos.
Os 300 cooperados produzem geleias e polpas de frutas típicas da região, como cajá, umbu e acerola. Os frutos nativos são cultivados com práticas de baixo carbono e manejo do solo. Com essas técnicas, a cooperativa já recuperou 500 hectares de áreas degradadas, contribuindo diretamente para a conservação do meio ambiente na Caatinga.
Para além dos Pampas
Famosa pelos Pampas, bioma com laços fortes com a cultura e a pecuária gaúcha, a Região Sul também abriga a Mata Atlântica, predominante no Paraná, Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul. Com uma diversidade de formações
vegetais, como florestas densas, matas de araucária, manguezais e restingas, o bioma predomina na serra do Rio Grande do Sul, onde nasceu a Cooperativa Vinícola Aurora. Com mais de 1 mil famílias associadas, a Aurora mantém a viticultura como principal fonte de renda local e produz rótulos reconhecidos dentro e fora do país.
Há 10 anos, a cooperativa começou a enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, além de problemas como erosão do solo e diminuição da reserva de água. A solução cooperativista foi buscar práticas que garantissem a preservação do meio ambiente e assim, a própria sustentabilidade do negócio. Com esse objetivo, em 2015, a Aurora implementou um sistema de gestão ambiental para melhorar a saúde do solo e aumentar a resiliência dos vinhedos.
As metas incluíam a redução dos riscos de erosão, a conservação da umidade e a melhoria da fertilidade e estrutura do solo. Em parceria com instituições de ensino e pesquisa, os cooperados receberam capacitação para aplicar as novas técnicas.
Nas áreas onde o manejo sustentável foi adotado, houve redução significativa do uso de herbicidas, melhoria da estrutura do solo e aumento da resiliência das videiras a eventos climáticos extremos. Mesmo durante as chuvas recordes registradas no Rio Grande do Sul em 2024, propriedades com cobertura vegetal apresentaram menor erosão e melhor retenção de água. O sucesso do projeto da Aurora também levou outros viticultores da região a adotar as práticas, ampliando o alcance das iniciativas sustentáveis.
Cooperação pela Mata Atlântica
No Sudeste do país, a diversidade também marca a paisagem: manguezais e restingas no litoral; áreas montanhosas e campos de altitude, além de importantes bacias hidrográficas. Mata Atlântica e Cerrado predominam na região, que também abriga áreas de Caatinga no norte mineiro. Todos eles têm o cooperativismo como um aliado no seu desenvolvimento econômico e ambiental.
A Mata Atlântica em Minas Gerais vivenciou diferentes ciclos produtivos: café, pecuária e indústria. Essa exploração levou o estado a conservar apenas 10% da cobertura vegetal original. Em Juiz de Fora, o Sicoob Coopemata está fazendo a sua parte para preservar o que sobrou do bioma e conseguiu recompor quase 9 mil metros quadrados de Mata Atlântica com a mobilização de seus cooperados.
Por meio de uma parceria entre a cooperativa e a associação responsável pela Reserva Santuário, área de 920 mil metros quadrados utilizados para pesquisa, ensino e recepção de animais silvestres resgatados, surgiu a ideia da campanha Adote uma Árvore.
O projeto nasceu de um conceito essencial do coop: juntos, somos mais fortes. Cada cooperado contribuiu com R$ 195, aportados em suas contas capitais, para financiar o projeto. Com os valores arrecadados, a cooperativa investiu R$ 133,6 mil no plantio e manutenção das árvores. O esforço resultou em 2,2 mil novas árvores, que contribuíram para a recuperação do solo e da vegetação de 8,9 mil m2 de áreas degradadas inseridas na Reserva Santuário. Com a ação, também foram neutralizados o equivalente a 43 toneladas de gases do efeito estufa, que agravam as mudanças do clima.
Ciência para transformar o Cerrado
Cerrado e Pantanal, biomas com paisagens exuberantes e enorme diversidade de fauna e flora, são os dois principais no Centro-Oeste do país. A região também é conhecida por uma atividade agropecuária pujante e que cada vez mais busca alinhar-se com práticas sustentáveis em seus negócios.
No Mato Grosso do Sul, produtores da Cooperativa Agropecuária São Gabriel do Oeste (Cooasgo) estão à frente de um projeto inovador na cadeia de suinocultura. Iniciado em 2025, o projeto de Suinocultura de Baixo Carbono une ciência, gestão ambiental, tecnologia e capacitação para transformar os dejetos da produção em biofertilizantes.
A iniciativa é uma parceria da cooperativa com a Cargill Nutrição e Saúde Animal, o Instituto BioSistêmico (IBS) e a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). A partir de parâmetros rigorosos de conformidade ambiental, as equipes estão estudando os melhores caminhos para o tratamento de resíduos, buscando também a redução de custos, reaproveitamento de nutrientes e potencial de geração de biogás e metano a partir dos dejetos dos animais.
Segundo o diretor da Cooasgo, Élcio Cação, é cada vez maior o interesse dos produtores e da indústria em projetos que reduzem o impacto da atividade agropecuária. “Esse tipo de iniciativa gera um ganho ambiental na cadeia produtiva como um todo”. A longo prazo, umas das metas é usar a produção de biogás na suinocultura para gerar créditos de carbono. A experiência poderá abrir um novo horizonte de oportunidades para os produtores e cooperativas do ramo.
Fundada em 1993, a COOASGO conta com mais de 1 mil cooperados e aproximadamente 460 colaboradores. Cerca de 60 propriedades já participam do projeto, que dá seus primeiros passos para transformar a realidade dos produtores e gerar impactos ambientais positivos para o meio ambiente no cerrado mato grossense.
