Intercooperação fortalece cooperativas e gera valor para os cooperados
Imagine um caixa eletrônico único que atendesse a todas as cooperativas de crédito. Ou uma solução tecnológica capaz de aprimorar as contas digitais oferecidas a cooperados de diferentes instituições. Iniciativas como essas podem se tornar realidade e mostram o potencial da intercooperação, 6º princípio do cooperativismo, que incentiva as cooperativas a trabalharem juntas para ampliar sua capacidade de atuação, resultados e impacto socioeconômico.
No cooperativismo de crédito, esse movimento ganhou força a partir de 2021, quando o Conselho Consultivo Nacional do Ramo Crédito da OCB (Ceco) definiu a intercooperação como uma de suas prioridades e passou a planejar ações, produtos e serviços que pudessem ser desenvolvidos de forma sistêmica. Dois anos depois, em 2023, foi assinado um Protocolo de Intenções para promover práticas de intercooperação entre os integrantes do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) e iniciar a construção conjunta de soluções em áreas consideradas estratégicas para o ramo.
Em 2024, o conselho definiu seis temas de estudo e desenvolvimento: securitização; transporte de valores e numerário; Universidade Cooperativa; segurança cibernética e antifraude; seguros; e contratação de consultoria para implementação do split payment – mecanismo tecnológico que separa de forma instantânea os impostos devidos do restante da receita de uma transação.
Para cada tema, foram criados grupos de trabalho com técnicos indicados pelos sistemas cooperativistas de crédito e um representante das cooperativas singulares independentes. O especialista em cooperativismo financeiro Lúcio Faria, coordenador dos grupos de trabalho de intercooperação do Ceco, explica que a proposta é unir conhecimentos e
experiências para desenvolver soluções, produtos e serviços capazes de gerar ganhos de escala, reduzir custos e aumentar a eficiência do SNCC.
“Mais importante do que os resultados, é que esteja sendo criada uma cultura de intercooperação. Essa talvez seja a maior entrega do projeto, porque cria um ambiente permanente de confiança entre os sistemas para desenvolver soluções conjuntas também no futuro. É mais fácil intercooperar para o novo do que para o que já está constituído”, destaca o consultor do Sistema OCB.
Entre as frentes do projeto, a Universidade Cooperativa vem ganhando destaque por priorizar a formação de conselheiros de administração das cooperativas. Sicoob e Sescoop, por exemplo, já possuem programas de certificação voltados a esses dirigentes e estão compartilhando suas experiências para contribuir com a concepção da universidade.
“Já foi construída a matriz de competências, com contribuições dos sistemas e do Banco Central, e o projeto está em fase de contratação para os mapas de conteúdo. Logo depois, teremos as etapas de desenvolvimento de conteúdos e das propostas metodológicas, além da produção dos cursos e guias metodológicos, com previsão de conclusão em setembro de 2027”, detalha Faria.
Mais do que estabelecer parcerias negociais, o projeto de intercooperação no ramo crédito visa consolidar uma forma de atuação baseada no 6º princípio, com união, ajuda mútua e confiança. Na prática, a redução de custos e o ganho de eficiência proporcionados pelas soluções conjuntas podem melhorar a oferta de produtos e serviços e, ao final do exercício, gerar resultados que retornem ao cooperado. “A intercooperação amplia a capacidade das cooperativas de entregar mais valor ao cooperado, preservando a essência do modelo cooperativista e fortalecendo a cultura coop”, afirma o especialista
O projeto conduzido pelo Ceco também evidencia um diferencial relevante do cooperativismo: as cooperativas podem competir entre si no mercado, mas encontram dentro do movimento oportunidades para intercooperar e atuar conjuntamente em questões que impactam todo o segmento. “O século 21 apresenta desafios que serão mais facilmente enfrentados com cooperação. Entre eles, podemos destacar a transformação digital e rápida evolução tecnológica, a crescente competição e a maior complexidade regulatória. Quando as cooperativas se unem para desenvolver soluções em conjunto, fortalecem todo o sistema e ampliam sua capacidade de competir no mercado”, ressalta Lúcio Faria.
Base histórica
“Cooperativas se fortalecem quando aprendem, fazem negócios e constroem soluções juntas”. A afirmação é do professor Rafael Campolino, coordenador do curso de Gestão de Cooperativas da Universidade Católica de Brasília (UCB), para quem a intercooperação também significa fortalecer alianças. “O 6º princípio parte de uma compreensão bastante concreta: uma cooperativa pode realizar muito, mas amplia sua força quando trabalha em conjunto com outras”, compara.
Essa atuação conjunta pode ocorrer por meio da troca de conhecimentos, do compartilhamento de tecnologias e estruturas, da formação de profissionais, da abertura de mercados ou da realização de projetos comuns. “Na prática, a intercooperação permite ganhar escala sem perder a identidade. Uma cooperativa continua preservando sua autonomia, mas passa a integrar uma rede capaz de enfrentar desafios que, isoladamente, seriam mais difíceis. É uma relação construída com confiança, reciprocidade e a compreensão de que o crescimento pode ser compartilhado”, afirma Campolino.
A intercooperação tem raízes nas origens do cooperativismo moderno. Segundo Campolino, suas bases estão relacionadas às ideias do filósofo político e reformista social Robert Owen, que, no século 19, defendia uma organização econômica fundamentada na educação, na ajuda mútua e na construção coletiva de melhores condições de vida. Ideais que se materializaram em 1844, quando os Pioneiros de Rochdale, na Inglaterra, se uniram para criar uma cooperativa baseada na participação democrática e na união de esforços.
Desde então, a intercooperação vem transformando a união, a parceria e a ajuda mútua em prática cotidiana nas cooperativas. E isso ocorre de várias maneiras: quando uma cooperativa compartilha uma experiência bem-sucedida, oferece apoio diante de uma dificuldade ou se une a outras para alcançar um objetivo comum. “Quando uma cooperativa ajuda a fortalecer outra, todo o movimento cooperativista ganha mais capacidade de representação, inovação e geração de oportunidades”, destaca Campolino.
“A intercooperação pode ampliar o acesso a mercados, serviços, crédito, tecnologias, capacitações e oportunidades de trabalho e renda. Também pode melhorar as condições de compra e comercialização e reduzir custos por meio do compartilhamento de estruturas e soluções”, lista o professor.
Além de benefícios para as cooperativas, a prática e fortalecimento do 6º princípio trazem vantagens para os cooperados, que passam a fazer parte de uma rede mais ampla de apoio e oportunidades. Isso ocorre porque, quando as cooperativas atuam em conjunto, aumentam sua capacidade de negociar, inovar, superar dificuldades e defender interesses comuns.
Segundo Campolina, em meio a um contexto de transformações econômicas e tecnológicas cada vez mais rápidas, a intercooperação permanece atual. “Questões como acesso ao crédito, inovação, sustentabilidade, competitividade e abertura de mercados dificilmente são enfrentadas de maneira satisfatória por uma organização isolada. A intercooperação permite unir competências, compartilhar recursos e encontrar caminhos mais sólidos”.
Intercooperação de ideias
Nas salas de aula do curso de formação em Gestão de Cooperativas, oferecido pela UCB em parceria com o Sescoop/DF, Campolino acompanha de perto como o 6º princípio ganha forma no dia a dia. Como estudantes da turma, representantes de cooperativas de reciclagem do Distrito Federal encontram espaço para compartilhar conhecimentos e desafios de seu trabalho cotidiano.
“Uma experiência de gestão, uma solução operacional ou uma tecnologia conhecida por uma cooperativa pode abrir novas possibilidades para as demais”, destaca o professor. “Quando o conhecimento de uma cooperativa contribui para o crescimento de outra, o cooperativismo revela sua verdadeira força. É o 6º princípio aplicado na prática: cooperativas unindo esforços para gerar oportunidades, fortalecer comunidades e transformar a vida das pessoas”, complementa Campolino.
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