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Patrimônio cooperativo ganha novos marcos em conferência global da ACI 

Lista internacional chega a 95 registros e amplia reconhecimento de lugares, práticas e tradições 

Tiago Schmidt, presidente da Sicredi Pioneira - PatrimônioA preservação da memória, das tradições e das experiências construídas pelo cooperativismo em diferentes partes do mundo ganhou destaque nesta quinta-feira (17), no encerramento da Conferência Global da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), na Cidade do Panamá. Com participação do Sistema OCB, a programação apresentou os novos resultados do Programa de Patrimônio Cultural Cooperativo (Cooperative Cultural Heritage – CCH), que passou a reunir 95 registros, entre patrimônios materiais e imateriais. 

Durante a plenária, Tiago Schmidt, presidente da Sicredi Pioneira e do Grupo de Trabalho de Patrimônio Cultural Cooperativo, anunciou a incorporação de 63 novas inscrições de 39 países em 2026. Elas se somam à lista lançada no ano passado, em Brasília, durante o Ano Internacional das Cooperativas. A primeira edição reuniu patrimônios de 25 países e marcou o início da construção de um mapa global destinado a identificar e preservar lugares e manifestações relacionados à história e à identidade do movimento cooperativista.  

“Há dois anos, este programa era apenas uma ideia. Hoje venho mostrar a vocês no que ela se transformou”, afirmou Schmidt. Segundo ele, a ampliação da iniciativa reforça uma característica que ultrapassa fronteiras. “Dia após dia, encontramos algo notável: as cooperativas são guardiãs vivas da cultura. Por meio da organização democrática, as comunidades preservam conhecimento, sustentam meios de vida e transmitem seu patrimônio às gerações futuras.” 

A apresentação fez parte do bloco de anúncios que antecedeu o encerramento da Conferência Global. A programação oficial reservou espaço específico para a atualização do CCH, conduzida por Schmidt, ao lado de outros informes sobre iniciativas internacionais do movimento.  


Patrimônio material e imaterial 

Adelina Guzmán e Emilio Pimentel - PatrimônioUma das principais novidades de 2026 é a ampliação do conceito adotado pelo programa. Além de edifícios, locais, instituições e paisagens ligados à história do cooperativismo, a lista passou a contemplar o patrimônio imaterial, formado por práticas, tradições, conhecimentos e manifestações culturais transmitidos entre gerações. A expansão já vinha sendo preparada pela ACI desde o lançamento da primeira edição do mapa.  

Entre os exemplos destacados no Panamá está a tradição do sombrero pintáo, preservada pela Cooperativa de Servicios Múltiples Artesanías Sombrero Pintáo. Ao final da apresentação, Schmidt convidou Adelina Guzmán e Emilio Pimentel, representantes da cooperativa, para receber simbolicamente o pôster da iniciativa em nome dos guardiões das inscrições de 2026. 

“A cooperativa preserva o patrimônio cultural imaterial dos chapéus Pintáo do Panamá por meio da participação democrática, tendo o desenvolvimento sustentável como eixo central de sua missão. Por meio de suas práticas, uma tradição viva é transmitida de uma geração para a outra”, explicou Schmidt. 

O avanço para o patrimônio imaterial amplia a capacidade do programa de registrar diferentes expressões da cultura cooperativa. A ACI define o patrimônio cultural cooperativo justamente pela combinação de elementos tangíveis — como locais históricos, museus e empreendimentos — e intangíveis, entre eles práticas e tradições que preservam valores e formas de governança cooperativistas.  


Brasil como referência 

A apresentação também destacou a experiência brasileira. Em julho, a Lei 15.433/2026 reconheceu formalmente o cooperativismo como manifestação da cultura nacional, iniciativa mencionada por Schmidt como exemplo de como o reconhecimento cultural pode avançar também no campo das políticas públicas. “O que defendemos aqui já é lei em um país, e pode ser em muitos outros”, declarou. A ACI já havia destacado, em agosto, que a legislação brasileira fortalece a agenda internacional de reconhecimento do patrimônio cooperativo e se conecta ao trabalho desenvolvido pelo CCH.  

O Brasil também teve papel central na origem do projeto. A plataforma e o primeiro mapa mundial foram lançados em novembro de 2025, no Palácio Itamaraty, em Brasília. A iniciativa é conduzida pelo Grupo de Trabalho de Patrimônio Cultural Cooperativo da ACI, que reúne representantes de diferentes regiões do mundo. “Esse reconhecimento mostra que o cooperativismo também é cultura. Ele está presente na maneira como comunidades se organizam, preservam conhecimentos, constroem soluções coletivas e transmitem seus valores. O desafio agora é fazer com que esse patrimônio seja cada vez mais conhecido, protegido e compartilhado”, acrescentou Schmidt. 


Cultura como ponte para a paz 

Ariel GuarcoEm sintonia com o tema da Conferência Global — Building Bridges: Cooperative Contributions for a Peaceful World (Construindo pontes: contribuições cooperativas para um mundo de paz), Schmidt relacionou a preservação do patrimônio à construção da paz e destacou exemplos de diferentes realidades históricas. Entre eles, citou a Holy Land Handicraft Cooperative Society, na Palestina, que preserva tradições artesanais e conhecimentos por meio da cooperação, e a tradição cooperativa dos kibutzim, em Israel. Segundo ele, a presença de experiências distintas no mesmo mapa busca preservar suas particularidades e, ao mesmo tempo, mostrar como a cultura pode estabelecer conexões. 

“São histórias distintas, nascidas de seus próprios povos, lugares e experiências. Nós as colocamos neste mapa para respeitá-las. Porque a paz não exige que tenhamos a mesma memória. Ela pergunta se memórias diferentes podem ser carregadas com dignidade, e se a nossa humanidade comum ainda é capaz de construir pontes entre elas”, afirmou. 

A iniciativa dialoga ainda com a Década Internacional da Cultura para o Desenvolvimento Sustentável 2027–2036, declarada pela Assembleia Geral das Nações Unidas e citada durante a apresentação como uma oportunidade para ampliar a presença do cooperativismo no debate internacional sobre cultura e desenvolvimento. 


Próximos passos 

A agenda já mira uma nova etapa. Para 2027, a expectativa é reunir representantes e guardiões dos patrimônios reconhecidos em Kerala, na Índia, em um encontro internacional dedicado ao tema. Entre as propostas está também avançar nas articulações para fortalecer a presença da cultura nas discussões sobre desenvolvimento sustentável. 

O mapa global permanece aberto como instrumento de divulgação e mobilização. Depois de alcançar 95 inscrições, o grupo estabeleceu como próximo marco chegar a 100 patrimônios reconhecidos, com a reabertura das candidaturas. “Este é apenas o começo. Vamos juntos descobrir, proteger e conectar o patrimônio cooperativo do nosso mundo”, concluiu Schmidt. 


Encerramento 

A apresentação sobre patrimônio integrou a manhã de encerramento da Conferência Global da ACI. A programação desta quinta-feira também promoveu uma discussão sobre cooperativismo, liderança e construção da paz, reunindo representantes de diferentes gerações e países para tratar de economias locais, tecnologia, inteligência artificial e do papel das cooperativas na promoção da paz.  

Na sequência, a conferência apresentou sua declaração final, conduzida pelo diretor-geral da ACI, Jeroen Douglas; pelo diretor da Cooperativas das Américas, Danilo Salerno; e pelo presidente da Comissão de Direito Cooperativo das Américas, Dante Cracogna. O encerramento reuniu ainda o presidente da ACI, Ariel Guarco; o presidente da Cooperativas das Américas, José Alves de Souza Neto; a diretora-executiva do Ipacoop, Erika Vargas; e o presidente da Cooperativa Profesionales, Alex Ortega.) 

Com o fim da Conferência Global, a agenda internacional do cooperativismo no Panamá entra em sua etapa final. Nesta sexta-feira (18), será realizada a Assembleia Regional Eletiva da Cooperativas das Américas.  

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