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Cooperativismo preserva legado e prepara as próximas gerações

Semana de Competitividade debate sucessão e estratégias para fortalecer a continuidade do modelo 

A programação da Semana da Competitividade 2026, realizada de 11 a 13 de agosto, também abriu espaço para discussões mais profundas sobre o que sustenta as cooperativas ao longo do tempo. Na sala temática da trilha Legado e Sucessão, lideranças e especialistas compartilharam experiências sobre cultura e preparação de novas gerações, demonstrando que a perenidade do cooperativismo depende tanto de preservar sua identidade quanto de preparar o futuro. 55459775565 41536087ee k 4ff8bae27936458b                Dafna Blaschkauer, escritora e palestrante

A escritora e palestrante Dafna Blaschkauer abordou a relação entre cultura, liderança, desempenho e continuidade das organizações. Com 25 anos de experiência em posições de liderança e passagens por empresas como Nike e Apple, ela destacou que estratégias podem ser copiadas, mas a cultura é construída a partir das escolhas e comportamentos que se repetem no cotidiano. 

Para Dafna, a cultura funciona como um “código-fonte invisível”, presente na maneira como as organizações lidam com erros, crises, decisões e relações. Por isso, a sucessão não deve ser tratada apenas como a escolha de quem ocupará uma posição de liderança, mas como um processo de preparação para garantir que aquilo que dá identidade à organização permaneça vivo. “A sucessão é um dos maiores testes da cultura. A liderança pode e deve mudar, mas o DNA da organização precisa continuar”, argumentou.  

 

Memória que se transforma em futuro 

A preservação da história cooperativista foi o tema do painel que contou com a participação de Heloisa Lopes, presidente da Casa Cooperativa, e Alberto Oppata, presidente da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta).  

Heloisa apresentou o trabalho da Casa Cooperativa na preservação do Sítio Histórico do Cooperativismo de Linha Imperial, em Nova Petrópolis (RS), onde nasceu, em 1902, o cooperativismo de crédito no Brasil e na América Latina. O espaço, que completa 15 anos, é o único local brasileiro entre os 31 reconhecidos como Patrimônio Cultural Mundial Cooperativo pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI). 

A iniciativa transforma esse legado em experiências educativas para cooperativas, estudantes e visitantes e inspira o Legado Coop, evento previsto para maio de 2027, com expectativa de reunir mais de 1,5 mil participantes. “Legado não é o que deixamos parado no passado. É o que continua em movimento nas mãos de quem vem depois”, defendeu. 

A trajetória da Camta, apresentada pelo presidente Alberto Oppata, mostrou como passado e futuro podem se conectar na prática. Criada a partir da imigração japonesa em Tomé-Açu (PA), a cooperativa enfrentou diferentes ciclos econômicos e encontrou na crise provocada pela fusariose da pimenta-do-reino o impulso para desenvolver o Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (Safta). Para Oppata, preservar o legado significa aprender com a história e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas ideias, tecnologias e gerações. A agrofloresta, segundo ele, traduz essa visão. “Assim como ela não depende de uma única espécie, a cooperativa não pode depender de uma única geração”, afirmou. 

 

Preparar quem vem depois 

A formação de novas lideranças foi o foco da apresentação Como planejar a sucessão nas cooperativas?, conduzida por Larissa Zambiasi, da CooperConcórdia. Produtora de leite, sucessora familiar e cooperativista, Larissa partiu da própria experiência para discutir um desafio presente em muitas organizações: garantir a renovação do quadro social e dos espaços de liderança. 

Um dos dados apresentados reforçou a importância do tema: apenas 13% dos cooperados possuem menos de 30 anos, segundo o AnuárioCoop 2025. Para Larissa, o cenário mostra que a sucessão precisa fazer parte da estratégia de desenvolvimento da cooperativa, em vez de ser tratada como um momento isolado. 

Nesse processo, ela contrapôs dois caminhos: de um lado, cooperativas que acompanham o envelhecimento do quadro social e esperam que os jovens estejam “prontos” para assumir responsabilidades; de outro, organizações que criam oportunidades de desenvolvimento, pertencimento e participação e, assim, formam lideranças ao longo do tempo. 

Essa jornada, segundo Larissa, pode começar ainda na infância e avançar por diferentes etapas: filho ou neto de cooperado, associado, integrante de comitês de jovens, líder de núcleo, delegado, conselheiro e, posteriormente, presidente ou vice-presidente. “A ideia é que a cooperativa acompanhe o cooperado em diferentes fases da vida e ofereça espaços reais de participação”, completou. 

 

Sucessão na prática 

A discussão ganhou uma dimensão prática com a participação de Bruno Rangel, diretor da Coplana, e Tiago Schmidt, presidente do Conselho de Administração da Sicredi Pioneira. Bruno contou que a Coplana estruturou seu processo de sucessão a partir da necessidade de fortalecer a governança e renovar suas lideranças. A cooperativa passou a investir na formação de produtores e na aproximação de jovens das famílias cooperadas com interesse pela atividade e pelo cooperativismo. 

O próprio Bruno participou desse processo desde 2012, quando ainda cursava Engenharia Agronômica, até chegar à presidência em 2020. Para ele, a sucessão exige preparação contínua e oportunidades para que os jovens conheçam a organização, seus valores e responsabilidades. “Quando damos confiança e mostramos que ele é importante para a cooperativa e para a sociedade, começamos a formar uma liderança baseada em princípios”, afirmou. 

Tiago Schmidt ampliou essa perspectiva ao defender que a sucessão deve alcançar diferentes instâncias da governança. “Não é só o presidente que precisa ser sucedido em uma cooperativa. Temos que pensar na sucessão do conselho e nas diferentes estruturas de liderança e representação. Na cooperativa, parte desse trabalho ocorre por meio dos coordenadores de núcleo, associados que aproximam a base da gestão e participam de processos de formação, projetos e discussões estratégicas”, destacou. 

A partir de 2018, a Sicredi Pioneira também passou a considerar características comportamentais e o envolvimento com a comunidade na identificação desses representantes. Segundo Tiago, a mudança contribuiu para ampliar a presença de jovens, mulheres, diferentes gerações e segmentos econômicos entre os coordenadores. A participação contínua na vida da cooperativa também ajuda a preparar potenciais conselheiros e novas lideranças. “Uma das coisas em que mais acredito como papel do presidente de uma cooperativa é identificar e formar novas lideranças estratégicas”, concluiu. 

 

Sucessão familiar 

A discussão avançou para a dimensão familiar e produtiva com Gabriela Olinda de Paiva, produtora rural da Coopexvale, Cooperativa de Produtores e Exportadores do Vale do São Francisco. Na palestra Sucessão com Propósito: cultivando lideranças para as próximas gerações, ela destacou que a continuidade das propriedades rurais exige preparar os jovens tanto para a gestão dos negócios quanto para uma participação efetiva no cooperativismo. A Coopexvale reúne 20 empresas familiares ligadas à produção e comercialização de uvas no Vale do São Francisco. 

Gabriela apresentou um estudo sobre sucessão familiar em empresas produtoras de uva de Petrolina (PE), que apontou as diferenças de opinião entre gerações e as dificuldades na tomada de decisão entre os principais obstáculos do processo. Para ela, reconhecer esses desafios permite antecipar conflitos e incorporar a sucessão ao planejamento das famílias. “Não esperar a necessidade aparecer para buscar um sucessor, mas formar hoje as pessoas que poderão dar continuidade ao cooperativismo amanhã”, resumiu. 

Com esse propósito, a Coopexvale estruturou ações para ampliar a participação das novas gerações, profissionalizar a gestão, formar lideranças e promover maior integração entre as famílias. Entre as iniciativas estão a inclusão de jovens na diretoria, a criação do Comitê de Organização do Quadro Social (OQS) e o Legado Coop, voltado aos filhos dos associados e potenciais sucessores. As ações já envolveram mais de 70 cooperados e familiares e contribuíram para a chegada de cinco jovens aos Conselhos Administrativo e Fiscal da cooperativa. 

 

Perenidade 

A sucessão ganhou uma perspectiva ainda mais ampla na palestra de Marcus Nakagawa, professor e especialista em sustentabilidade. Ele relacionou a continuidade das cooperativas à capacidade de incorporar governança e visão de longo prazo à gestão. Para Marcus, pensar em sustentabilidade significa também discutir perenidade, preparar quem conduzirá a organização no futuro e definir o legado que será transmitido às próximas gerações. 

Nesse processo, aspectos ambientais, sociais e de governança precisam estar integrados às decisões e aos processos da cooperativa. Marcus associou essa visão aos próprios princípios cooperativistas, como gestão democrática, participação econômica, educação, formação e interesse pela comunidade. “O ESG não é um departamento e também não pode ser tratado como uma moda. Ele é transversal, faz parte da gestão e da gestão de riscos”, salientou. 

Segundo ele, essa abordagem permite conectar os resultados do presente à capacidade de enfrentar transformações, reduzir riscos e assegurar a continuidade da organização. “Não basta pensar apenas nos resultados de hoje. É preciso ter governança, controles e políticas, mas também promover conversas maduras sobre quem vai conduzir a organização no futuro e qual legado queremos deixar”, concluiu.

 

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