Por que as cooperativas devem tomar decisões baseadas em dados?
Em um cenário de alta competitividade e mudanças cada vez mais rápidas no mercado, tomar decisões apenas com base na experiência já não basta. Saber onde investir, quando expandir uma operação, como atender melhor aos cooperados ou identificar riscos antes que eles se tornem problemas depende, cada vez mais, da capacidade das cooperativas de transformar dados em informação útil para a gestão.
É justamente esse o propósito do Anuário do Cooperativismo Brasileiro, do Sistema OCB, que teve sua edição 2026 lançada no dia 31 de julho. Principal levantamento sobre o setor no país, a publicação mostra que as 4,4 mil cooperativas brasileiras reúnem 29 milhões de cooperados, geram 613,4 mil empregos e movimentam R$ 848,4 bilhões na economia. Mais do que reunir números, o AnuárioCoop oferece base sólida para que dirigentes planejem o futuro de suas cooperativas.
“O Anuário é a principal radiografia do cooperativismo brasileiro. Ele reúne informações sobre o desempenho das cooperativas em todo o país e mostra, de forma concreta, qual é o impacto do setor na economia e na sociedade. Para além de apresentar números, o objetivo é oferecer conhecimento para apoiar decisões e mostrar a força do modelo cooperativista”, afirma o coordenador do Núcleo de Inteligência e Inovação do Sistema OCB, Igor Seixas Miranda Vianna.
Segundo ele, o AnuárioCoop deve ser visto como uma ferramenta de gestão. “O dirigente pode usar os dados para comparar o desempenho da sua cooperativa com o setor, identificar tendências, avaliar oportunidades de crescimento e embasar decisões estratégicas. É uma forma de olhar para além da realidade da própria organização e entender o contexto em que ela está inserida”.
Vianna destaca que praticamente todas as grandes decisões de uma cooperativa podem ser fortalecidas por dados. “Desde a abertura de uma nova unidade, lançamento de produtos e serviços, definição de investimentos, até ações voltadas à fidelização dos cooperados ou à melhoria da eficiência operacional. Ao permitir comparações entre ramos, regiões e indicadores econômicos, o Anuário ajuda os dirigentes a transformar informações em planejamento e a tomar decisões com menor grau de incerteza”, destaca.
Dos dados à estratégia
Para o auditor federal de Finanças e Controle da Controladoria-Geral da União (CGU) e professor de Tecnologia da Informação do Gran Faculdades, Vitor Kessler, mais do que reunir informações relevantes para o negócio, o verdadeiro diferencial de usar dados nos negócios está em saber interpretá-los e transformá-los em estratégias.
“Uma gestão orientada por dados é aquela em que as decisões são fundamentadas em evidências, e não apenas em opiniões, impressões pessoais ou práticas históricas”, argumenta. “Quando a decisão é baseada apenas na percepção, problemas relevantes podem ser subestimados, recursos podem ser direcionados para áreas de menor impacto e ações aparentemente bem-sucedidas podem ser mantidas sem que exista comprovação de seus resultados”, exemplifica.
Segundo Kessler, muitas organizações ainda decidem sem recorrer à análise de dados porque parece a via mais rápida e, muitas vezes, mais confortável. “O gestor já possui experiência no setor, conhece a organização e acredita que consegue reconhecer os problemas sem precisar de uma análise mais estruturada. Além disso, muitas organizações ainda possuem dados dispersos, desatualizados ou armazenados em sistemas que não se comunicam, além de enxergarem indicadores como mecanismos de controle ou fiscalização, e não como instrumentos de aprendizagem e melhoria”, afirma.
Outro fator, aponta Kessler, é a falsa impressão de que trabalhar com dados exige tecnologias complexas, equipes numerosas e grandes investimentos. “Na prática, é possível começar com estruturas simples, desde que existam objetivos claros e disciplina na coleta e análise das informações”, explica. “À medida que a maturidade aumenta, a organização pode investir em integração de sistemas, armazenamento de dados, plataformas de BI [Business Intelligence], automação e inteligência artificial”.
Para as cooperativas que desejam fortalecer a tomada de decisão com base em dados, Kessler recomenda começar pelo problema que precisa ser resolvido, e não pela tecnologia. “Antes de escolher ferramentas, a organização deve definir qual problema precisa resolver e quais dados são necessários para isso. Essas informações precisam ser confiáveis, analisadas em contexto e comparadas com metas ou referências. Mais do que gerar gráficos, a análise deve orientar ações, com responsáveis, prazos e acompanhamento dos resultados”, orienta.
Indicadores na rotina
Esse movimento de tomada de decisões com base em dados já faz parte da realidade das cooperativas brasileiras. Uma delas é Aurora Coop, de Santa Catarina, que reúne mais de 150 mil famílias cooperadas e atua nas cadeias de carnes suína e de aves, lácteos, pescados e alimentos industrializados, com operações em diversas regiões do país. Na Aurora, dashboards, BI e indicadores fazem parte da rotina dos gestores.
“A Aurora vem evoluindo de uma cultura baseada predominantemente na experiência e no conhecimento dos gestores para um modelo em que os dados complementam e qualificam as decisões. Isso ocorre por meio da ampliação das plataformas de
Business Intelligence, da democratização do acesso às informações, da governança de dados e da incorporação de indicadores aos fóruns de gestão e acompanhamento estratégico”, afirma a diretora administrativa Marinei Aparecida Zuffo Antunes da Rocha.
Segundo Marinei, a principal mudança foi compreender que dados não são apenas um elemento tecnológico, mas um ativo estratégico do negócio. A cooperativa passou a valorizar decisões sustentadas por evidências, estimulando questionamentos, análises e validações antes da tomada de decisão.
Atualmente, todos os principais processos da Aurora estão mapeados em ferramentas de BI, e a organização já avança na integração dessas informações com soluções de Inteligência Artificial. Um dos exemplos está na área agropecuária, onde, segundo Marinei, o uso de geoprocessamento, cruzamento de informações sanitárias e análise espacial contribuiu para o planejamento preventivo, gestão de riscos e definição de ações operacionais na cadeia produtiva.
Apesar dos avanços tecnológicos, Marinei acredita que o principal fator para uma gestão baseada em dados continua sendo outro. “Se fosse necessário escolher apenas um fator, eu responderia: cultura. A tecnologia tornou-se cada vez mais acessível. Processos podem ser desenhados e redesenhados. Pessoas podem ser treinadas. Porém, sem uma cultura que valorize evidências, transparência, aprendizado contínuo e decisões fundamentadas, os dados não geram valor real”, avalia.
“Na Aurora, a transformação ocorre quando liderança, equipes e tecnologia trabalham de forma integrada, mas é a cultura que efetivamente converte informação em ação e ação em resultado. Essa é a base para uma organização verdadeiramente orientada por dados”, finaliza Marinei.
