Trilha de governança aponta caminhos para cooperativas mais perenes
Participação, formação de líderes e diversidade marcam debates da Semana de Competitividade
Princípios e valores dão identidade ao cooperativismo, mas é na forma como as pessoas participam das decisões, assumem responsabilidades e preparam novas lideranças que essa identidade se mantém viva ao longo do tempo. Na Semana de Competitividade 2026, os debates da trilha Governança Cooperativa mostraram como participação, formação e diversidade podem transformar a cultura do movimento em práticas de gestão e contribuir para a continuidade do modelo de negócios entre diferentes gerações.
Na primeira palestra do dia, ao abordar como a liderança pode promover a cultura cooperativista, Silvio Giusti, da Giacoo, defendeu que estratégia e cultura precisam caminhar juntas. Para ele, cabe às lideranças transformar princípios e valores em comportamentos cotidianos e garantir que cooperados, colaboradores, conselheiros e dirigentes compreendam o propósito da organização. “A estratégia dá a direção e a cultura faz essa estratégia acontecer”, afirmou.
Giusti chamou atenção para a necessidade de comunicar as ações realizadas pelas cooperativas, mas também as razões que estão por trás delas. “Precisamos dizer o porquê fazemos aquilo que fazemos. É aí que estão nosso diferencial e nosso legado”, acrescentou.
Fortalecimento
A discussão ganhou exemplos práticos no painel sobre fortalecimento da governança, mediado por Simone Montandon, coordenadora de Governança e Gestão do Sistema OCB. Ela relacionou o desafio da participação à dimensão atual do movimento, que reúne mais de 29 milhões de cooperados e registra um volume de ingressos superior a R$ 848 bilhões. “Cultura e governança têm uma relação muito próxima”, destacou.
Um dos cases foi apresentado por Ederson Madruga, presidente da Certaja, cooperativa de infraestrutura do Rio Grande do Sul que identificou um progressivo afastamento de seus mais de 30 mil cooperados. Em assembleias, a participação havia chegado a apenas 250 ou 300 pessoas. Para reverter esse cenário, ela reorganizou seu quadro social por meio da criação de núcleos regionais, o que ampliou os espaços de prestação de contas, formação, escuta e participação.
A iniciativa, segundo Ederson, levou o envolvimento nas atividades para perto de 4 mil pessoas, entre cooperados e familiares. “Os cooperados estavam nos enxergando como uma distribuidora comum. Nós não podíamos perder a nossa essência e a nossa identidade”, afirmou o dirigente. A experiência agora avança para uma nova etapa, com maior participação dos núcleos na governança, preparação de novas lideranças e iniciativas voltadas a mulheres e jovens.
O segundo case foi apresentado por Magno Braz, presidente da Coopersino e representante do Ramo Trabalho no Sistema OCB/MT, que mostrou os resultados do EduCoop, iniciativa voltada ao fortalecimento da governança, da gestão e da intercooperação entre as cooperativas educacionais de Mato Grosso. O programa surgiu a partir das dificuldades enfrentadas pelo segmento, especialmente após a pandemia, quando as cooperativas identificaram fragilidades na gestão e a necessidade de preparar melhor dirigentes e cooperados.
A iniciativa começou com diagnósticos individualizados e avançou para capacitações, planejamento e intercâmbio de experiências. Entre os resultados apresentados, 100% das cooperativas participantes passaram a contar com planejamento estratégico estruturado e documentação adequada, enquanto 90% realizaram projetos sociais e ampliaram seu portfólio de negócios.
Magno Braz chamou atenção principalmente para a necessidade de capacitar quem assume funções de liderança. No segmento educacional, ele explicou que profissionais com sólida formação pedagógica podem passar a ocupar cargos administrativos sem necessariamente terem sido preparados para gestão, planejamento ou tomada de decisões. “Se a governança não tem capacitação, você fica no escuro”, lembrou. Para ele, a formação também é fundamental para preparar novos dirigentes, fortalecer a participação dos cooperados e garantir a sucessão dentro das organizações.
Diversidade
A força da diversidade foi o próximo tema a entrar na discussão. Gisele Gomes, CEO da Parônima defendeu que iniciativas de inclusão não podem depender exclusivamente da disposição de um presidente ou dirigente, sob o risco de desaparecerem quando ocorre uma mudança de gestão. De acordo com ela, o desafio é institucionalizar a diversidade, incorporando o tema aos processos e à própria cultura das organizações. “Precisamos pensar nisso como uma ação em camadas: participação, visibilidade das trajetórias e mudança para quem chega e para quem permanece”, declarou.
Gisele também relacionou diversidade à estratégia das organizações e destacou a crescente participação feminina na economia. “A discussão sobre mulheres na liderança não deve partir de uma visão essencialista, como se características naturalmente femininas fossem responsáveis por melhores resultados, mas da contribuição proporcionada pela pluralidade de experiências e perspectivas nos espaços de decisão”, defendeu.
O debate sobre diversidade também contou com experiências práticas de dirigentes e representantes do cooperativismo. Tiago Schmidt, presidente do Conselho de Administração da Sicredi Pioneira (RS), apresentou os resultados de um trabalho voltado à ampliação da participação feminina. Na última renovação do Conselho, três dos quatro novos integrantes eleitos são mulheres. O resultado, segundo ele, gerou questionamentos sobre uma eventual adoção de cotas. “Não colocamos cota. O segredo foi dar o mesmo tempo para todo mundo, dar o mesmo espaço para as mulheres”, afirmou.
Jaqueline Azevedo Gomes, vice-presidente do Sicoob Central Bahia, por sua vez, chamou atenção para a importância de envolver também os homens nas discussões sobre diversidade e inclusão. Ela observou que a presença masculina havia sido maior nas atividades realizadas pela manhã e diminuiu justamente quando a programação passou a tratar do tema. “Quando começamos a falar de diversidade e inclusão, os homens não participam”, mas a presença deles é fundamental para que possam atuar como multiplicadores dessa discussão”, argumentou.
Jaqueline também citou a experiência desenvolvida na Bahia com ações de formação de mulheres e jovens, voltadas à preparação de novas lideranças e à ampliação da participação desses públicos nos espaços de representação. Para ela, o cooperativismo precisa avançar para uma compreensão mais ampla da diversidade, que não fique restrita apenas à discussão entre homens e mulheres. “Ainda estamos na disputa do gênero. Precisamos discutir para além disso”, completou.
A discussão sobre a participação feminina ganhou novos exemplos em painel mediado por Divani Ferreira, analista de Desenvolvimento de Cooperativas do Sistema OCB, com a participação de Iandra Vilela, coordenadora do Grupo Caffeína Cocatrel, e Solange Pinzon, vice-presidente da Central Sicoob Unicoob.
Iandra apresentou a trajetória do Grupo Caffeína, criado na Cocatrel para fortalecer e valorizar a atuação das mulheres cafeicultoras. A iniciativa reúne mais de 2 mil mulheres e combina conhecimento compartilhado, apoio mútuo e qualificação da produção com a construção de espaços de protagonismo.
“O Caffeína é um movimento construído sobre conhecimento compartilhado, apoio mútuo e a busca incansável pelo melhor. Aqui aprendemos, crescemos e evoluímos juntas”, afirmou Iandra.
O movimento também associa o protagonismo feminino à geração de valor. Os cafés produzidos pelas participantes recebem cuidados no pós-colheita, rastreabilidade e controle de qualidade e já chegaram a mais de 20 países. “Somos mais de duas mil mulheres que produzem, cultivam e transformam. E esse número cresce a cada safra. Mulheres que disseram sim ao protagonismo”, destacou.
Na sequência, Solange mostrou como a participação pode avançar até os espaços formais de decisão. A experiência apresentada por ela partiu da criação de comitês femininos com o objetivo de ampliar a presença de mulheres em cargos de liderança cooperativista.
“Nosso objetivo com o Comitê Feminino é possibilitar a inclusão de mais mulheres em cargos de liderança cooperativista”, explicou Solange.
O trabalho envolve a conscientização das altas e médias lideranças, a mobilização das cooperadas, a estruturação dos comitês e a criação de um plano de capacitação. “A proposta é definir um plano de capacitação que possa transformar participação em protagonismo”, ressaltou.
Futuro sustentável
A relação entre governança, cultura, perenidade e sustentabilidade ganhou uma perspectiva de futuro nas apresentações de Ricardo Voltolini e Rosilene Rosado. Voltolini destacou que preservar a essência cooperativista exige capacidade de atualizar crenças e práticas diante das transformações da sociedade e do mercado. Para ele, a governança exerce papel decisivo nesse processo ao transformar propósito em políticas e rotinas, criar condições para inovação e preparar a sucessão de lideranças. O especialista defendeu uma atuação capaz de conciliar legado e identidade, eficiência no presente e preparação para o futuro, com sustentabilidade, diversidade e inovação incorporadas às decisões e à avaliação das lideranças.
Já Rosilene Rosado aprofundou essa conexão ao relacionar os critérios ESG ao sétimo princípio cooperativista, o Interesse pela Comunidade. Ela ressaltou que a atuação das cooperativas está diretamente ligada aos territórios onde estão inseridas e que a geração de valor alcança cooperados, comunidades, economia e meio ambiente. “Nesse contexto, sustentabilidade passa pela identificação de impactos, riscos e oportunidades, pelo envolvimento das partes interessadas e pela definição de indicadores e metas capazes de orientar a gestão”, declarou. A perspectiva, segundo ela, é assegurar que as cooperativas atendam às necessidades atuais e, ao mesmo tempo, preservem as condições para que as próximas gerações continuem gerando valor.
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