Artigo aponta relação entre desempenho e inclusão feminina em coops
Pesquisa do 8º EBPC mostra que coops mais rentáveis tendem a ter mais mulheres na governança
O artigo Desempenho Financeiro e a Participação das Mulheres no Conselho de Administração de Cooperativas Agropecuárias Brasileiras, apresentado e premiado na oitava edição do Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cooperativismo (8º EBPC), evidenciou que o resultado econômico das cooperativas agropecuárias pode ser um fator decisivo para ampliar a participação feminina nos conselhos de administração.
O estudo assinado por Luis Felipe Orsatto e Clea Beatriz Macagnan parte de uma inversão da lógica mais comum na literatura acadêmica. Em vez de investigar se a diversidade melhora o desempenho, os autores analisam se cooperativas com melhores resultados econômicos tendem a incorporar mais mulheres em seus conselhos, como resposta a expectativas sociais, pressões institucionais e busca por legitimidade. A análise foi baseada em dados de 213 cooperativas agropecuárias brasileiras, totalizando 426 observações referentes aos anos de 2021 e 2022.
Os resultados revelaram um cenário de baixa representatividade feminina na governança: a proporção média de mulheres nos conselhos de administração foi de apenas 4,87%. Em 319 observações, não havia nenhuma mulher ocupando assento no conselho, e apenas um caso registrou paridade de gênero. Ainda assim, a análise econométrica identificou uma associação positiva e estatisticamente significativa entre o desempenho financeiro, medido pelo Retorno sobre Ativos (ROA), e a maior participação feminina nos conselhos.
De acordo com o modelo de regressão utilizado, cooperativas com melhor desempenho financeiro apresentam maior propensão a incluir mulheres em seus órgãos de decisão. Para os autores, o resultado sugere que organizações mais rentáveis ganham visibilidade e passam a sofrer maior pressão para adotar práticas alinhadas às expectativas contemporâneas de inclusão e diversidade. “O desempenho atua como um sinal de capacidade e abertura institucional”, apontam os pesquisadores.
O estudo também indicou que organizações mais antigas tendem a apresentar menor participação feminina nos conselhos, possivelmente em função da manutenção de normas históricas e padrões de governança consolidados ao longo do tempo. As demais variáveis analisadas, como tamanho do conselho, número de associados, ativo total e nível de endividamento, não apresentaram significância estatística na amostra.
Embora o modelo tenha capacidade explicativa limitada, os autores destacaram que os resultados contribuem para o debate sobre diversidade e governança no cooperativismo agropecuário brasileiro.